Entrevista! Realejo e Tahan: a história que poucos sabem

Por Thais Lima


José Luiz Tahan, livreiro, editor e proprietário da livraria Realejo, contou um pouco de sua história. Da abertura da livraria, o que pensa sobre a cultura da baixada Santista e muito mais.

Aos 18 anos, Tahan, precisou procurar emprego para pagar sua faculdade de arquitetura. Porém, logo após um ano, trancou o curso. Bem descontraído diz, “eu brinco que fiquei nas fundações do projeto, no começo do projeto, não cheguei a finalizar”. Explicando sua trajetória, ele diz que estudava e trabalhava em períodos alternados na extinta livraria Iporanga. Foi surpreendido, na época, quando seus patrões lhe ofereceram uma proposta para que entrasse como sócio na livraria. “Foi assim que decidi trancar o curso e seguir a vida com um outro rumo”.

A Livraria Iporanga finalizou os trabalhos em 2004. A partir de uma sequência de idéias, Tahan decide então abrir a Livraria Realejo. O nome representa um “mundo mais humano” para o proprietário, trazendo um pouco de saudosismo. A livraria é bem clássica, mas ao mesmo tempo vanguarda. Foi investido algumas idéias pioneiras no local, como por exemplo o “café bar”, dentro da livraria. A Realejo é uma livraria que se associa aos escritores e assim foi criada a “Tarrafa Literária”, chegando em sua décimo edição.

Na Realejo, as crianças também têm sua vez. Os lançamento de livros infantis sempre são ligados à um evento de contação de história onde se possa ligar mais os livros a esse mundo infantil. Às sextas-feiras, por sua vez, contam com uma atração fixa. Música ao vivo nos finais de tarde, a quase 13 anos, gratuitamente.

O início da Realejo foi na Rua Euclides da Cunha, no antigo prédio da Universidade Santa Cecília, em Santos. Até Tahan observar um ponto a venda, na Rua Marechal Deodoro, nº 02, literalmente no coração do Gonzaga, um dos bairros mais agitados da cidade litorânea. O livreiro convidou seu amigo pessoal e escritor, Roberto Torero, para se tornar sócio da livraria. Assim compraram esse novo (atual) espaço.

Fachada da Realejo - Foto Divulgação

A sociedade durou por 2 anos. O período foi marcado por sequências de escolhas e oportunidades. Fazendo com que a Realejo se tornasse o que é atualmente. Uma livraria clássica, com um ar de modernidade ao mesmo tempo.

Existem alguns tipos de livrarias no mundo que só funcionam em um espaço. Estudei muito para chegar até aqui, chega a ser interessante. Teve uma época em que tive três lojas, e era muito chato. Não sou um varejista, administrativo. Somos mais um ponto de encontro. Obviamente nos preocupamos com as vendas, mas esse tipo de livraria funciona em um ponto só. Um ponto único, característico, com honestidade, com um livreiro dentro, que sou eu. Que as pessoas me encontrem aqui. E a minha equipe caminhe fluindo em torno dessa identidade”

Casado, com três filhos, de 7, 9 e 11 anos, brinca que eles só vão à Realejo para bagunçar tudo. Ele conta com uma equipe de 3 funcionários para tocar a livraria.

Com a crise econômica, o livreiro teve alguns problemas financeiros em 2008, e resolveu “enxugar” a rede. Assim acabou descobrindo a identidade da Realejo. Com uma editora, no andar de cima, sem necessitar de grande espaço, pois a distribuição é feita no Brasil inteiro, do norte ao sul. A editora tem apoio de alguns freelas, designers, revisores, assessoria de imprensa, vendedores da editora, distribuidores e tradutores.

Na livraria existe cursos e clube de leitura. Os clientes estudam um livro pelo mês inteiro e depois se reúnem para discutir sobre o assunto. Ao final de todo esse conjunto Tahan decidiu mantê-la em apenas um local, podendo assim se dedicar sem a preocupação de precisar ficar nas outras unidades.

A Realejo e o acesso a tecnologia

Os livros da editora Realejo também são trabalhados como e-books. Com uma distribuição ampla na Amazon, Saraiva e Cultura. Tahan defende que a livraria não é um oponente a tecnologia. Ele também atua sempre com a visão clássica, mas com “um olho no novo”.

Os dados sobre livros impressos só aumentam. São dados positivos, isso é legal de dizer. As pessoas tinham certo receio de que os e-books ameaçassem os livros, mas isso já é passado. Hoje os livros impressos crescem sem parar, aliás nunca deixaram de crescer. Isso é um fato”

Atualmente a Realejo tem 10 mil likes na fanpage do Facebook, a página pessoal de Tahan tem por volta de 5 mil. Quando existe alguma campanha de lançamento de um livro, a Realejo sempre investe um pouco mais em mídias sociais.

Tahan falou sobre como “combater” ou se “aliar” a tecnologia, fazendo com que as  crianças cheguem a ter curiosidade pela leitura. Já que, hoje, têm um acesso tão fácil a internet, a e-books, redes sociais, youtubers, etc.

Acho que se contaminar pela leitura é muito fácil, o livro é um suporte consagrado, uma hora terá um livro na história. É necessário um pouco de disciplina, pois é muito fácil ser seduzido pelo virtual. Precisa ter uma estratégia para falar com as criança
Acredita que o exemplo também vem de casa, quando a criança vê os pais lendo, consequentemente terão curiosidade por tal comportamento”.

Novo projeto para a Realejo

Clube do Livreiro’, onde haverá um canal do Youtube, com algumas ferramentas também do Google. Será um site específico onde terá um link com a Livraria. A ideia é que este site faça com que o leitor seja convidado a contratar um livreiro online. Terá um preço fixo mensal, e assim, o leitor irá receber todo mês um livro em sua casa e ainda receberá uma ilustração do autor do livro, feita pelo próprio livreiro. Já que adoro desenhar e esse foi um dos motivos para cursar arquitetura”.

Tahan acrescenta que a livraria não tem nada a perder investindo nesse novo projeto, que está quase sendo lançado. Os livros serão escolhidos de acordo com a narrativa, com a característica do leitor, por ser um livro gostoso de ler, e que provavelmente os leitores não tenham tanto acesso ao título.

Livreiros e afins

Tahan se rotula como livreiro, e atualmente diz, ser uma profissão a qual as pessoas mal sabem que existem. Isso porque, para ele, ao ir em uma livraria de mercado, ou livrarias de rede, o cliente não se sentindo atendido por um livreiro, tudo é muito burocrático.

O livreiro em si, acaba escolhendo um mix de títulos e através dessa escolha, é onde a livraria ganha uma certa personalidade. O livreiro sabe comprar e encaminhar esse título para os leitores. Sobre seu atual livro de cabeceira, Tahan responde

Eu brinco que durante o ano todo, eu leio os livros que me cobram ler e, nas férias, eu leio os mortos, os mais clássicos. Então hoje estou lendo um autor nordestino, pouco conhecido. Me foi recomendado por um autor africano, seu nome é Pepetela, na realidade é o apelido. O nome é Artur Pestana. Seu livro foi escolhido para ser usado para Fuvest”

Para finalizar uma frase já esperada durante a entrevista e surpreendente com a era digital:

A indústria do livro cresce, o livro está muito bem, obrigado. Claro que existem as desigualdades, das grandes redes que sufocam os pequenos. Sofremos com isso, é natural. Mas, o produto livro está garantido, essa é a notícia mais legal para ser divulgada. ”

Acesse o Epílogo e confira muito mais.

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